Arquivo para suicídio

Ela se foi duas vezes para mim.

Posted in Uncategorized with tags , , , , , , , , , , , on agosto 25, 2012 by b.c.

Meu apartamento vazio como sempre.

Desde que ela se foi, não vejo mais graça nas coisas. É tudo tão vazio, até as ruas que dizem estar lotadas de pessoas. Mas eu procuro, procuro e não acho, não a acho ali. Talvez eu apenas fosse muito apegado. Só que é impossível não sentir falta do calor dela, dos carinhos e manhas, do cheiro do cabelo, do amor que ela dizia sentir por mim. Sei que devia estar com raiva por ela ter me deixado, mas não. Sinto apenas saudades.

Minha irmã ligou, minha antiga cunhada também. Todos me dão consolação. Tenho faltado meu trabalho, e que trabalho? Lá perto foi onde a conheci. Sentada no sofá vermelho-vinho do pequeno Café da esquina.

“- Posso sentar aqui? – disse por ver que o local estava todo ocupado – Perdão. Bom dia. Eu sou…”

Nesse dia ela disse que nunca iria esquecer meu nome. Então ela gravou o de outro homem há pouco tempo. E sei que ele também sente falta dela, porém não quanto eu sinto. Ele deve sentir falta dos gemidos que ela produzia ao estar na cama com ele. Canalha! Quer dizer… Não posso julgá-lo assim. Só porque, já eu, sinto falta de como ela sussurrava em meu ouvido o quanto estava feliz por eu estar ali com ela. Ela era tão especial. Se foi duas vezes pra mim.

Primeiro com ele. Depois com todos, com todos aqueles que me deixaram antes. Maldito acidente! Maldito carro! Maldito motorista bêbado! Maldita vida! Maldito eu por ter amado. Por ter amado alguém tão rápido, por ter deixado perder. Por tê-la deixado ir embora, ter entrado no carro e batido. Mas agora me diz, por que com ela? Poderia ter ido outra pessoa, talvez. Que tal o cara bêbado do outro carro? Mas não! Tinham que levar ela!

Só espero que ela durma o para sempre dela em paz. Comigo.

Me espere um pouco, meu amor.

E que Clarisse assim não seja.

Posted in Uncategorized with tags , , , , , on agosto 8, 2012 by b.c.

E Clarisse era igual ao pai; alta, seus cabelos cacheados, olhos profundos, perigosos. Mesmo gosto musical, mesmo volume ao fone de ouvido. Só esqueceram de reparar que era a mesma tristeza escondida atrás daqueles lindos olhos. Sem motivo algum, ela esquecia propositalmente de contar à todos que não se sentia bem, só contava ao seu espelho. Isso ela puxara da mãe. Ficava às vezes o dia todo virada de frente para o espelho conversando consigo mesma.

“Você está bem” sussurrava sorrindo fracamente, “é bobeira”.

E se não se enganam, a música estava certa em alguns casos. Aliás, esse vazio ela conhece muito bem, tanto ela quanto sua mãe. Mas Clarisse nunca pensava na possibilidade de desabafar com alguém, até fazer o absurdo. Em uma noite mais escura do que o normal, Clarisse se esqueceu de ter uma alma, um calor. Deitou sobre sua cama e chamou a morte. Chamou baixinho. “Vem, pode vir” suspirava, “Não tenho medo de ti”. Mal sabia Clarisse que não era assim tão fácil. Ela, dona Morte, vem e vai quando bem entender. Nem sempre é bem vinda, mas suportável.

“Bem, parece que vou ter que te forçar a vir”, falou como se mandasse na Morte. Como se mandasse na balança gráfica dos tais mortos e vivos. Decidira se levantar e por seu plano em prática, e o fez. Estava tudo pronto; cadeira, corda, laço. Só faltara a coragem. Não de se matar, a coragem de deixar tudo e todos. Mas tudo bem, achava, “ficarão melhores sem mim”. Subiu com um pouco de dificuldade na cadeira, respirou fundo e sorriu.

   “Eu sou um pássaro. Me trancam na gaiola, e esperam que eu cante como antes. Eu sou um pássaro. Me trancam na gaiola, mas um dia eu consigo existir e vou voar pelo caminho mais bonito…”

Era isso, estava na hora. Clarisse já não sentia mais medo ou qualquer nervosismo. Estava neutra, tranquila, nem ao menos chateada. Por que estaria chateada? Sempre fora assim, sozinha. Então não havia com o que se chatear. Nem sequer uma lágrima de tristeza desceu, e sim de emoção. Ignorante da parte de alguns não entenderem sua felicidade naquele momento. Finalmente iria se livrar de tudo aquilo que já a machucava; o nada. O vazio, a solidão, a repiração constante. Talvez a vida pra ela não fizesse sentido, talvez a vida nem deveria existir, talvez… Talvez algo concreto, certeza.

Suas pontas dos pés se esforçavam para ainda continuar tocando a cadeira, ainda. Clarisse a chutou.

E se foi. Com apenas poucos quatorze anos e muita solidão. Talvez era para ser assim, sozinha.